Crítica: Cantigas de Amigos
Dos cd’s que regularmente tenho ouvido há um que, para já, gostaría de salientar. Falo-vos de “Cantigas de Amigos”, um disco editado em 1999, pela Sony Music, com produção do percussionista João Balão e pelo (mais conhecido) guitarrista José Moz Carrapa.
É um cd fabuloso, muito bem produzido, com 14 canções tradicionais mais uma faixa que é uma versão bastante curiosa de uma música de Zeca Afonso.
Os convidados para solistas nas várias canções, bem como os diversos músicos para os vários instrumentos, foram muito bem escolhidos, mostrando a produção, desde logo, um enorme bom gosto. Assim, encontramos nos instrumentos ditos tradicionais, Amadeu Magalhães e Fernando Meireles, nas percussões João Nuno Represas e outros convidados como Pedro Jóia, Pedro Wallenstein, Carlos Barreto, João Courinha, entre outros.
A primeira faixa, “Senhora do Carmo”, é um pequeno extracto de uma recolha de Giacometti. Segue-se a minha faixa preferida, um misto de “Mira-me Miguel” e “Çarandilheira”, um conjunto transmontano interpretado por Genoveva Faísca e pelos irmãos João Afonso e Toninho Afonso. Logo a seguir, as vozes de Luís Represas e Né Ladeiras encantam com “A Vindima”. Na faixa seguinte, “Deus te salve, Ó Rosa” aparece Paulo Costa (dos Ritual Tejo) e Viviane (dos Entre Aspas) para uma dupla fantástica. Segue-se a voz lírica de Carla Lopes em “Maragato” e na sexta faixa reaparece apenas a voz de Genoveva Faísca para uma primeira versão de “Por riba se ceifa o pão”. Seguidamente, a peculiar voz açoriana de Zeca Medeiros com ajuda das Cramol (coro feminino de Oeiras, já com mais de 25 anos de existência). Para a “Moda do Entrudo” vem de novo Né Ladeiras para uma versão do “Milho Verde”.
Seguem-se mais duas vozes de peso do panorama musical português: a voz contra-tenor de Nuno Guerreiro para a cantiga “Donde Vens, Ó Dona Ancra” e a de Maria João num bonito “São Macaio”. Um instrumental de “Maria Faia”, na faixa seguinte, em versão flamenga e a canção alentejana “Rouxinol” com a linda voz de Minela Medeiros são as músicas seguintes. Segue-se a faixa 13 com a segunda versão de “Por riba se ceifa o pão”, agora com as vozes de alguns elementos dos Gaiteiros de Lisboa. A última canção tradicional presente no disco é a “Moda da Farrapeira”, apenas com as Cramol.
Por fim, a versão de “A garrafa vazia de Manuel Maria” de Zeca Afonso em que todos os convidados, ordeiramente, aparecem a tocar e/ou a cantar.
Vale a pena adquirir, numa qualquer feira do disco ou nas lojas especializadas (mais difícil), este cd bastante bem elaborado, bem produzido e tecnicamente com um som (de Jorge Avilez) muito bem conseguido, principalmente, nas percussões. A não perder…
André Moutinho
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